raíz

Foi assim que sonhei visitando a escola da mais primeira infância. A casa, as grades amarelas em formato circular, a pirralhada, palhoça, o portão da frente tudo era meio igual e meio diferente. Eu era meio criança e meio adulta. Era esse tempo e aquele outro tempo. Era novo e era velho. Porém, apenas uma coisa desse cenário permanecia exatamente igual: o pé de pitanga da frente da secretaria. Ele não tinha tempo, não era velho, nem era novo, não era nem de 1991 nem de 2017. Era o pé de pitanga da frente da secretaria. Continuava a dar frutos, umas pitangas bem vermelhinhas com aquele azedinho que foi o sabor da minha mais primeira infância, mas que, no sonho, continuava na minha vida adulta. O tempo da pitangueira era de outra linhagem: Não abarcava o sabor da impermanência, era presença infinita. E isso consolava a , as vezes, inconsolável certeza de que tudo passa, tudo passará, de que nada fica, nada ficará.
Fico pensando no recado que a pitangueira me deu: eu, tão crédula do que o budismo, os astros e os búzios me falam de impermanência e que a vida é movimento, por que me aparece no sonho uma árvore alheia ao temperamento do tempo, num ato de extrema rebeldia? Será que para além de toda minha certeza na impermanência, além de todas as mudanças , estradas vertiginosas da vida, caminhos de movimentos, rodas vivas, para além do que todo os anos que essa vida tem me mostrado de supresas e coisas fora do meu controle – tem coisas que, como o pé de pitanga do meu sonho,

simplesmente, ficam?
Simplesmente, sempre são?
E permanecem?

assovio

mesmo com todo sol de rachar

com boletos, chefes, brigas no facebook

mesmo com toda crise da palavra

eu escuto:

no meio da cidade grande, louca e desgovernada

no meio da cidade grande, louca e violenta

ao redor de prédios e entre prédios

duas horas depois da hora de pico

alguém perdido pelas janelas a mil,assovia

– eu sei que vou te amar

 

tigres e leões nos quintais

soltei  também os tigres e os leões no quintais. por algum tempo persegui um bom mocismo que  sufocava algo dentro: não que não visse sentido, mas é que o maniqueísmo cansa. estar do lado de ser sempre aquela boa, aquela compreensiva e ouvinte me exasperou.

os tigres e os leões nos quintais me socavam por dentro até que soltei: pude observá-los famintos, vorazes, numa ânsia pela luz do sol. fizeram lambança, comeram tudo que viram na frente, se lambuzaram de sangue, carne crua, e eu, como se em algum momento aquela selvageria também não fosse minha, olhava de longe com uma gostosa permissão de deixar aquela catástrofe acontecer.

até que eles cansaram. não é que cansaram. até que eles por verem e sentirem a liberdade, experimentaram a calma. agora os vejo passeando, andando pelo quintal, com a ânsia esvaziada de urgência. é isso que agora eu quero: meus tigres e leões nos quintais soltos. libertos e , por essa autorização, acalmados. mas não sem agudeza, não sem perspicácia, não sem lucidez e velocidade. percebo e aceito toda essa selvageria e me vai bem conhecer meus tigres e leões, me vai bem deixar eles agirem, que me libertem de todo maniqueísmo e obrigação da boa fala e da boa conduta. quero viver com eles nesse quintal e encará-los todo santo dia da minha vida. quero liberdade para eles para apresentarem minha minha contradição, polifonia e meu desejo mais latente. *

Referência ao texto de Taís Bravo ”Sou uma Mulher Difícil de Amar”

Movéis imovéis

Os móveis e objetos, o que será que acontece com eles quando ninguém está em casa? A sala, a cozinha e os quartos, como será o movimento sem gente zanzando, correndo corredores? O sol batendo no guarda-roupa, o vento balançando a toalha bordada da mesa, um mosquito ou outro que visita a casa nesse silêncio de coisas acontecendo secretamente. Como será essa dinâmica depois que a última pessoa fecha a porta e só volta daqui algumas horas? Quando pequena imaginava os objetos se movendo, o sofá indo na cozinha dando bom dia  a geladeira. Colocava os brinquedos bem próximos uns dos outros para que não se sentissem sozinhos durante o período de ausência humana. Cuidava para que nenhuma planta também ficasse isolada. E imaginava que, quando se abria a porta, num átimo de segundo mágico das coisas (assim como no filme ToyStory), tudo voltava ao seu lugar por respeito a nossa ideia tola de que os objetos são inanimados. Respeito até hoje o que sentia quando criança: as coisas são animadas, tudo no mundo é ânimo.Tudo e move. E, confesso que até hoje, quando abro a porta e dou com o breu da sala, fico imaginando o desacontecimentos do que foi vivido pela casa toda durante esse período de -”vazio”-.

O vento move o sininho de vento, alguém grita na rua, móveis imóveis. E quando eu dormir, como vai ser?

a quase chuva

o silêncio do sertão, hoje o reencontrei. aquele silêncio do começo do mundo, do começo cheio de fim, de onde o vento faz a curva e volta renovado pro planeta. o silêncio que precede a chuva. sim, todo ser humano devia passar pela experiência do que é um dia de quase chuva por essas bandas. fabiano me disse – queria que desse aquela chuva que eu ficasse atolado nesse carro, mas que pelo menos chovesse. olha lá pra aquele lado, tá chovendo em brumado, me parece. de casa em casa era o debate da água, não vale a nuvem só de ameaça, do céu cinza, do raio repentino que disparou meu coração. mas, minha filha, só quem sabe da chuva é deus, se deus dá, deus cria. – ô fabiano, você me deu o documento de outra creuza. essa aqui é creuza carvalho, eu sou creuza rosa, eu arreparei na riscura aqui e tá errado. e fabiano viu o erro e disse – ô dona creuza, será que chove?
a palavra valência, hoje a reecontrei. foi dita pela última mulher que falei hoje e ela disse que tinha valência de morar num lugar como aquele. a palavra valência me causa a mesma sensação de ”vou romper”, que significa ir embora e a mesma sensação quando dona creuza falou riscura. valência mesmo foi quando eu e fabiano rompemos pra estrada e sentimos três a quatro pingos de chuva. só pensei em bênção e fabiano disse – nada como acabar um dia como esse e sentir esses pingos, isso é bênção ou não é, heim, juli?

ô sertão réi viciante.

aa

Meta um grelo na geopolítica

Hoje é dia da maldade, hoje é dia de golpe.  Não foi de se estranhar que para além de uma segunda-feira senti um oco de vazio, um gosto de nada no céu da boca. Deve ser o gosto do golpe, um golpe de nada, infértil. Um golpe nos parcos direitos sociais, um golpe desses homens brancos, ricos e dessincronizados com um tempo de mudança, de conquistas e felicidade. A ordem é privatizar, acabar com programas de erradicação do analfabetismo, derrubar as universidades públicas, entregar o pré sal ao capital estrangeiro. A ordem é cortar na veia cirurgicamente o que nos sustenta enquanto democracia, nos deixar tontos, baratinados com essa metralhadora giratória de tragédias nos direitos. A ordem é que a gente vá levando. Talvez, eles estejam acertando: só constatamos revoltados os vilipêndios, os tiros no peito, a nossa retirada de compreensão histórica de onde estamos e quem somos. Eu mesma, não consigo mais falar só #ForaTemer. Eu falo pra quem? Com que objetivo? Vejo todo mundo se perguntando ‘’mas por que a gente ainda não quebrou tudo?’’. Sim, por que ainda não mostramos o tamanho real da nossa indignação a um processo que usurpou nossa escolha política enquanto país? Parece que preferimos nos convencer que isso vai demorar tempo.  O que podemos fazer? De verdade.

Enquanto eu escrevo esse texto Dilma Vana Rousseff fala no senado brasileiro. Eu só posso pensar que, enquanto mulher, Dilma foi abandonada até por setores do seu próprio partido. É julgada pela segunda vez na história. Quanta repercussão uma mulher no posto máximo nesse país. Que repercussão desse discurso no dia de hoje, 29 de agosto de 2016. Em pensar que em 2014 um colega falava com arrogância, soberba e ironia de Dilma ser coração valente. Depois de tanta misoginia, preconceito, tortura, um câncer, outro julgamento: quero ver quem diga que a presidenta não é coração valente. Quero ver quem teria a metade dessa força. Que missão nessa terra, querida. A História vai nos dizer o quanto que inquisição ainda acende muitas fogueiras.

Sim, existem críticas ao governo da presidenta, qual outro não teria? Sim, precisamos ser responsáveis na crítica. Nossa democracia é tão frágil, tão corda bamba, e os homens ricos brancos são tão velhos em serem aves de rapina , que precisamos ter muita sabedoria na hora da crítica, esses homens são espertos, eles sabem alinhar a crítica para fazer o melhor e torná-la para fazer o pior.

Será que conseguiremos ressignificar esse nosso vácuo enquanto população? Será que vamos conseguir desenhar formas de reais mobilizações? Ou já viramos a páginas e deixamos, mais uma vez na história, uma mulher sozinha? Os homens seguirão para cuidar das eleições municipais e suas negociatas, negociando, inclusive a vida de nós mulheres. Precisamos construir outro projeto de coletivo, que a gente se reconheça e oxigene a política de pulsação de vida. Colocar de novo a pauta da utopia, do sonho, de que uma vida melhor é possível e acreditar nisso. E, nós mulheres, saber que a política ainda é repleta de misoginia, que partidos políticos são, em si, um projeto do patriarcado e que precisamos desconstruir quilos e quilos de privilégios e construir do fundo da verdade o nosso espaço dentro de uma democracia.

dilma

 

Recife réio

Recife, essa cidade que me abriga fazétempo, onde eu nãoseiporque vejo tantas das minhas raízes por debaixo dos asfaltos, que vem de tanto tempo e vem, talvez, da Várzea. Várzea, o bairro da minha primeira escola, foi lá que vi o ônibus CDU/Várzea de primeiro andar. Recife, que hoje de manhã, em mais um engarrafamento fenomenal, o maior em linha reta da rui barbosa, me desafia a preservar pensamentos positivos. Como preservar o espirito livre de mandar tudo se foder, quando o carro avança na calçada, o carro estaciona na calçada, o carro na faixa, o carro na ciclovia, o carro na cabeça. Em mais uma manhã de engarrafamento fenomenal, desci do ônibus e fui andando da Jaqueira até o Espinheiro. Buzina, freada, carro avançando pra eu não atravessar a rua. Obra da prefeitura na esquina da rua Amélia, ô prefeiturazinha! E me veio toda aquela ideia de Recife anos 90, quarta pior cidade do mundo, Recife do coquinho alto astral de Jarbas – em 2016 – que clima parecido. Um amigo baiano ontem tinha me dito: Pensei que Recife fosse menos careta. E eu: não, amigo, Recife tem passado por um processo Miame beach de encaretização. No meio do meio trajeto, cadê a rádio Frei Caneca, nem mais, nem menos, começa aquela vinheta de Véio Mangaba da música ‘’A Cidade’’, de Chico Science. Tou meio enjoada de Chico, mas deixa aqui essa música tocando: enquanto eu atravessava a Rosa e Silva, minha sintonia de relação com a cidade mudou. Mudou o grau, mudou a lente. E, lembrei que aquela ideia de Recife anos 90, quarta pior cidade do mundo, Recife do coquinho alto astral de Jarbas tinha sido profundamente  ressignificada por Chico Science e toda sua egrégora. E que Recife réio pôdy tá tão maltratada que não merece mais meus pensamentos malditos e ingratos. Pelo menos isso. Agora esse meu desafio de preservar o afeto por essa cidade que surgiu de  uma quinta-feira tão desavisada, tem por objetivo ser permanente.

chico